Um homem idoso decidiu passear pela Europa. Trazia uma mala de roupa, uma carteira com dois cartões bancários, dois passaportes sendo um do Reino Unido e outro do Canadá e um telemóvel.
Em Lisboa foi assaltado, tendo ficado apenas com os passaportes e a carteira com os cartões bancários. Passaportes valem muito no mercado paralelo, e quem os traz na carteira raramente tem noção disso.
Apanhou um autocarro e veio parar a Beja. Na viagem o motorista percebeu que a pessoa estava sem noção do tempo e do espaço. Falando inglês, estava desorientado. À chegada a Beja o motorista ligou para o INEM e foi levado para a urgência.
Conversa errante, desconexa. Triagem, análises, soro. Ficou sentado numa cadeira de rodas o tempo que, para ele, foi uma eternidade. Saiu do hospital com o cateter ainda na mão.
A ESTAR recebeu um telefonema: havia um senhor desorientado, com um cateter na mão. Fomos de imediato. A PSP já lá tinha estado, com um enfermeiro que lhe retirou o cateter. Dizia não querer voltar ao hospital.
Apresentei-me. Reparei logo em como era extremamente educado comigo. Fiz-lhe algumas perguntas e consegui convencê-lo a voltar. No hospital, foi-me dito que não havia motivo para internamento.
Não me pareceu seguro deixá-lo entregue a si próprio, numa cidade que não conhecia, numa língua que não fala, sem roupa e sem telemóvel.
Veio connosco para a ESTAR enquanto pensávamos numa forma de o ajudar. Pelo nome, contactámos a polícia da sua cidade, em Inglaterra, e a embaixada em Portugal. Pediram-nos apenas ajuda para o fazer regressar. Da morada já não se lembrava. Por sorte, havia um voo direto de Faro quatro dias depois.
Nesses dias, esteve na ESTAR durante o dia e na Pensão Santa Bárbara à noite. A pensão ajudou-nos, em contacto permanente, a mantê-lo seguro e o mais orientado possível. No dia do voo, seguiu com a equipa da ESTAR para o Aeroporto de Faro.
Hoje sabemos que chegou bem e que já está com a família.
Ir para além da nossa missão também faz parte daquilo que somos. Pode parecer pouco. Mas um cidadão estrangeiro, vulnerável e desorientado, está à mercê de tudo o que lhe possa acontecer e entendemos, como sempre, não olhar para o lado.
A ação teve custos. Acima de tudo, teve um final feliz.
Obrigada a todos os que alertaram, acompanharam e se preocuparam com este cidadão.
ESTAR onde é preciso, com humanidade e responsabilidade.

